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CLAIRE – PARTE 01


 
Estou no meu carro, a caminho de Teresópolis, ouvindo a música que inspirou meu nome – Clair de Lune, de Claude Debussy – Claire é meu nome. Será que alguém consegue pronunciar corretamente? “Clér”. Sempre tive problemas com esse nome na escola.
Ir para a casa de meus pais não era bem o Natal que eu imaginava. Meu marido, quer dizer, meu ex-marido, resolveu passar o Natal com sua atual esposa e com nossos filhos em Londres. Chique isso!
Meus filhos! Sinto saudades! Eu os amo tanto! Às vezes, eles se parecem tanto com o pai...
- “Tudo na vida se resume em ter ou não ter dinheiro. Se você tem dinheiro, você tem amigos, saúde, amor. Se você não tem dinheiro, você não tem nada.”
Nunca me esquecerei destas palavras ditas por meu ex-marido, um materialista filho da... Não! Não quero me lembrar de coisas que me aborrecem. Estou indo para Teresópolis para tentar esquecer este último ano e sei que tudo vai dar certo. Assim espero.
Estou em frente à casa de meus pais, onde nasci e passei minha infância e adolescência. Quando eu era criança, jamais pensei em sair de Teresópolis, mas conheci meu ex-marido aqui e ele dizia que só seria possível vencer na vida, indo para uma cidade grande, onde existem grandes possibilidades.
Bati na porta.
- Querida! Que saudade! Há quanto tempo você não vem nos ver!
- Oi, mãe! Estou com saudade também.
Ela me abraçou forte, como se quisesse arrancar de vez a saudade. Papai, como sempre, estava dormindo na rede da varanda.
- Pai! Como o senhor está?
- Claire! Quando chegou? Não te vi antes!
- Acabei de chegar.
Ele me abraçou e me deu um beijo no rosto.
Minha mãe não parava de falar sobre como estavam as coisas na cidade. Quem partiu, quem voltou, quem casou, quem nasceu, quem morreu... Minha mãe era o tipo de pessoa que sabia da vida de todo mundo e achava que sabia da minha também.
- Claire, fiz o bolo de chocolate que você tanto adora. Venha! Vamos comer o bolo com suco de laranja, do jeitinho que você gosta!
Enquanto comia o bolo e bebia o suco, que realmente era um dos meus pratos favoritos, minha mãe desandou a falar.
- Lembra-se do filho de Dona Eliane, o Álvaro? Ele não se casou, acredita? Eu o convidei para passar a ceia conosco e a primeira coisa que ele me perguntou, foi se você viria. Sempre achei que ele era apaixonado por você. E Elisabeth? Lembra-se dela? Foi sua colega no ginásio. Ela se casou três vezes! Não teve filhos, mas parece feliz. Tem também Dona Iracema, ela teve um AVC, coitadinha, mas está ótima! E o seu João, dono da antiga mercearia, agora ele tem um grande supermercado. O Ricardo...
Meu Deus! Mamãe vai falar de todos na cidade e preciso fingir que estou prestando atenção, senão ela vai começar tudo de novo.
Após tomar o lanche, fui para meu antigo quarto para descansar um pouco. Desfiz as malas – sempre levava muitas roupas e sapatos, para onde quer que eu fosse, mesmo que por pouco tempo – e guardei tudo em meu armário, o mesmo de quando eu ainda era adolescente. Eu gostava dele, cabia tudo o que eu precisava. Dormi durante duas horas e acordei com um cheirinho gostoso que vinha da cozinha. Tomei um banho, coloquei um vestido estampado de seda e desci, indo direto para a cozinha.
- Dormiu bem, Claire?
- Dormi sim, mamãe. O que está fazendo para o jantar? O cheiro está ótimo!
- Carne assada regada com vinho e batatas. Você adora!
Era verdade! Aliás, tudo o que minha mãe fazia era divino! Ela sempre gostou de cozinhar e o fazia muito bem.
- Quer ajuda, mãe?
- Não, querida! Obrigada! Por que não vai dar uma volta, enquanto preparo o jantar?
Seguindo a sugestão de minha mãe, fui dar uma volta pelo bairro. Quase nada havia mudado. Algumas novas lojas e farmácias e, no lugar da antiga mercearia do Seu João, o supermercado que minha mãe havia comentado. Havia uma floricultura charmosa na esquina da casa de minha mãe, não era da minha época. Passei pela praça onde tem a igreja que fiz minha primeira comunhão e onde me casei. Vi a antiga sorveteria e entrei. Servi-me de duas bolas, uma de morango e uma de chocolate. No meu tempo, Dona Carminha nos servia os sorvetes, agora é self service. É o progresso!
Sentei-me para saborear meu sorvete, que ainda tinha a mesma qualidade de antes.
- Claire?! É você mesma?
Ah, meu Deus! Não estou a fim de conversar com ninguém, quero sossego!
- Claire? É você?
Olhei para o som da voz que insistia em me chamar e reconheci. Era Elisabeth, a que adora casar.
- Claire! É você mesma, menina! Há quanto tempo! Você está ótima!
- Obrigada! Você também está muito bem!
- Conte-me! Como vai sua vida? Onde está a família? Marido, filhos. Sua mãe sempre fala de como sua família é linda. Como anda aquele bonitão mais cobiçado da cidade, aquele seu marido gostosão?
- Ex-marido. Estamos separados.
- Ex? Não acredito amiga! Sério mesmo? Vocês formavam o casal mais lindo que já houve nesta cidade, o casal perfeito. Como isso foi acontecer?
Não quero falar do meu ex-marido cobiçado e gostosão.
- É, nos separamos. Ele e as crianças foram passar as festas de final de ano em Londres.
- E não te levaram? Absurdo!
- Elisabeth, não estamos mais casados, natural eu não ir com eles, mesmo porque, ele se casou novamente.
- Casou? Ele teve coragem de abandonar você?
Abandonar? Ele não me abandonou, eu o larguei quando descobri que ele estava tendo um caso com minha ex-aluna, vinte anos mais nova do que eu.
- Pois é! Essas coisas são comuns acontecer hoje em dia, não é mesmo? Fale-me de você. Como está?
- Estou casada pela quarta vez...
Quarta vez? Não era pela terceira, como minha mãe havia dito?
- Meu marido é maravilhoso, meu personal trainer. Forte, bonitão, simpático, viril... Você vai conhecê-lo e então vai me dizer se não tenho razão.
Ela continuou falando sobre o marido e sobre tudo o que eu não queria saber. Finalmente, acabei meu sorvete e ia me despedir, quando ela me fez um convite.
- O que vai fazer na antevéspera de Natal?
- Não tenho nada programado. Por quê?
Não sei se fiz bem em perguntar.
- Porque vai ter um concerto no Teatro Municipal. Piano. É uma artista internacional. Tenho convites e como sei que você adora música clássica...
A princípio, pensei em me lembrar de algo que eu ia fazer no dia 23 de dezembro, mas impulsivamente, aceitei o convite.
- Aceito sim. A que horas será a apresentação?
Ela me entregou dois convites.
– Para o caso de você querer levar alguém. - Disse ela, dando uma piscadinha e um sorriso malicioso.
Quem eu poderia levar? Meu pai? Minha mãe? Guardei os convites na bolsa e, antes que mais alguém me reconhecesse, fui para casa.
 
Vinte e uma horas. Esse é o horário do concerto.
A caminho de casa, passei em uma butique que não existia no meu tempo e comprei um vestido de cetim, longo e dourado. Abusei um pouco no decote. Comprei também sandálias douradas em um tom abaixo do vestido.
Fui para casa, tomei um banho demorado e comecei a me arrumar. Prendi meus longos cabelos castanhos claros num coque e deixei alguns fios soltos. Fiz uma maquiagem leve, mas destacando meus olhos negros. Mais uma olhada no espelho para ver o que faltava. Ah sim! O perfume! Deveria ser suave para não incomodar os narizes alheios.
Coloquei um colar, brincos e uma pulseira. Mais uma olhada no espelho. Aprovada! Para uma mulher com 44 anos, até que eu estava bem. Desci as escadas e fui para a cozinha ver se o jantar estava pronto.
- Filha! Como você está bonita! Aonde você vai?
- Obrigada, mamãe. Encontrei com Elisabeth e ela me convidou para ir a um concerto. Ela me deu dois convites. A senhora quer ir comigo?
- Não, minha filha! Não tenho mais saúde para ficar muito tempo sentada. E nem em pé. Vai você e divirta-se!
Jantei, escovei os dentes, retoquei a maquiagem e beijei meus pais. Peguei meu carro e fui em direção ao teatro. Ao chegar, não imaginei que haveria tantas pessoas. Tinha até manobrista na porta! Pelo jeito, seria um grande evento.
Tentei estacionar. Não queria ninguém dirigindo meu carro, mas não tive opção, pois, os únicos lugares para estacionar ficavam a metros de distância e eu não poderia caminhar com sandálias tão altas e de salto fino. Sem contar o vestido longo se arrastando pelo chão! Com muito pesar, dei as chaves do carro para um manobrista franzino, com um olhar meio idiota, mas com um sorriso simpático.
Na porta, entreguei o convite e entrei. Mulheres elegantíssimas e homens vestindo smoking decoravam o rol de entrada do teatro. Em meio a tanta gente, fiquei aliviada em não encontrar alguém conhecido. Ainda não estava a fim de conversar. Mas...
- Claire! Oh, querida! Como você está linda!
Era Elisabeth e estava acompanhada com um rapaz que deveria ter no mínimo vinte anos a menos que ela.
- Deixe-me lhe apresentar meu marido. Claire, este é Bruno. Bruno, esta é uma antiga amiga, Claire.
Cumprimentamo-nos. O rapaz deu-me um sorriso sedutor e olhou diretamente para o meu decote. Garotos!
Elisabeth nos levou para nos acomodar em nossos lugares. Era um lugar estratégico, perfeito! Aos poucos, todos no teatro foram se acomodando.
As cortinas se abriram, e uma mulher com cabelos louros e compridos, presos em um rabo de cavalo, já estava no palco sentada ao piano. Sem ser apresentada, ela começou a tocar. Fechei meus olhos e me senti no século XVIII. A música tocava suave, embalando meus ouvidos. Não me sentia tão leve há tanto tempo!
A cada música terminada, aplausos ecoavam pelo teatro.
- Claire, escute! Ela está tocando a “sua música”!
- Sua música? Foi você quem fez? – Perguntou o garoto forte e viril.
- Oh! Ele está brincando, Claire.
- Claro que está! – Respondi, fingindo acreditar.
- Para falar a verdade, não sei quem compôs esta música. Você sabe, Claire?
- Sim. Claude Debussy. O nome da música é Clair de Lune, que significa Luar.
- Sua mãe lhe pôs este nome por causa da música, não foi?
- Sim.
Graças a Deus, o assunto se encerrou e pude me concentrar na música que ouvi durante anos, mas que naquele momento, me parecia inédita. A pianista a tocava divinamente, eu podia sentir sua respiração, sua inspiração.
O concerto acabou e confesso que fiquei decepcionada. Senti-me em paz ao som do piano. Queria mais!
Esperamos que as pessoas saíssem, para então sairmos também. Não gostava de tumulto.
- Claire, onde está indo?
- Elisabeth, não sei se você percebeu, mas o concerto acabou.
- Claro que percebi – disse ela, gargalhando – Oh, Claire! Você é tão engraçada!
Não fui engraçada, fui irônica.
- Então... Como acabou, devemos ir, certo?
- Errado. Haverá uma festa para pouquíssimos convidados e nós estamos entre eles. Seremos apresentados à famosa concertista.
Famosa? Nunca ouvi falar dela!
- Festa? Não sei...
- Ah, não Claire! Você não me fará essa desfeita! Foi um “parto” conseguir os convites para essa festa, você precisa ir! Por favor, Claire!
Sem saída. Como dizer não a Elisabeth? Nunca conheci alguém que conseguisse fazer isso.
A festa era no Hotel onde a pianista estava hospedada. Deixei meu carro no estacionamento do teatro e fui no carro de Elisabeth, junto com o garoto forte e viril.
Ao chegarmos, Elisabeth mostrou ao porteiro três convites e entramos. Uma linda e simpática jovem nos levou ao salão de festas, que estava elegantemente decorado. Realmente havia poucas pessoas, umas trinta, aproximadamente. Isso é pouco? Bem, para o tamanho do salão que comportava 200 pessoas, eram poucos convidados.
Elisabeth rodou por todo o salão com seu marido forte e viril a tiracolo. Eu preferi sentar-me a uma mesa que estava reservada em nome de Elisabeth. Um garçom ofereceu-me uma bebida, era champanhe. Perguntei se havia vinho tinto suave. Gentilmente, ele disse que iria providenciar. Logo ele voltou com uma garrafa de vinho e me serviu uma taça. Hmmm! Era tão gostoso!
Fiquei olhando os casais dançando e não percebi a aproximação de uma pessoa.
- Claire?!
Quem ousava me tirar de meus pensamentos? Olhei para ver quem era.
- Pois não. – Respondi, tentando ser educada.
- Não se lembra de mim? Álvaro, do colégio.
- Álvaro? Filho de dona Eliane?
- Isso mesmo! Fico feliz que tenha lembrado!
Não lembrei exatamente dele, lembrei porque minha mãe falou.
- Nossa! Você está linda! Mais do que me lembrava.
- Você também está muito bem, Álvaro!
- Quer dançar?
Ah não! Por favor! Não quero dançar, não sei dançar, odeio dançar...
- Dançar? Por que você não se senta para conversarmos? Gostaria de saber das novidades, colocar o papo em dia.
Ai meu Deus! Ele sentou.
- Claro! Conte-me... O que anda fazendo da vida?
- O mesmo de sempre. Trabalhando ainda como professora, cuidando da casa, dos filhos. Essas coisas sem muita importância.
- Tudo a seu respeito é importante, Claire.
Oh! Que gentil!
- Seu marido está aqui?
- Não. Estamos separamos.
- Separaram? Sério?
Ele quis parecer surpreso, mas me pareceu muito feliz.
- Sério. – Antes que ele continuasse a querer saber de mim, logo perguntei. – E você? O que tem feito?
- Também o mesmo de sempre. Sou professor na Universidade, aqui mesmo em Teresópolis. Não me casei e não tenho filhos. Construí a casa de meus sonhos, porque é claro que ainda vou formar uma família, só estou esperando a mulher certa aparecer.
Ele sorriu. Acho que não gostei do sorriso dele. Ele não está pensando que a “mulher certa” sou eu, né?
- Sua mãe me convidou para cear com vocês na véspera de Natal. Ela me contou que você viria. Eu aceitei, claro!
- Claro! Amanhã. A ceia.
E de novo, aquele sorriso. Alguém me ajude, por favor!
- Álvaro, querido! Estou vendo que você encontrou sua eterna amada Claire.
Quando pedi ajuda, não pensei exatamente em Elisabeth e nem mesmo que ela fizesse esse comentário tão... Tão... Tão inconveniente!
- Ora, Elisabeth! O que Claire vai pensar de mim com esse seu comentário?
Vou pensar o óbvio: me esquece.
- Não vou pensar nada, Álvaro! Não se preocupe.
Bem, apesar dos olhares devoradores e incômodos de Álvaro sobre mim, de Elisabeth não parar de tagarelar, fazendo fofoca sobre todo mundo, e do garoto forte e viril me olhando exatamente como Álvaro, pelo menos eu não precisava falar nada.
- Senhoras e senhores, sejam todos bem-vindos. Vou lhes apresentar a grande artista que nos deu a honra de visitar nossa cidade. A ilustre e talentosa mademoiselle Juliette Duniér.
Francesa?! Todos a aplaudiram. Mademoiselle Juliette Duniér desceu do palco e foi cumprimentar as pessoas às mesas. Aproveitei a deixa e fui ao banheiro mais próximo. Precisava retocar a maquiagem, esfregar um pouco meus pés, que estavam me matando com as sandálias altíssimas, além das necessidades básicas, claro!
Para meu alívio, não havia ninguém no banheiro. Demorei um pouco, me refazendo das tantas torturas que estava sofrendo. Elisabeth, garotão forte e viril, Álvaro, pés... Não estou reclamando, são apenas observações. Ótimo. Estava pronta para o segundo round. Ou seria o terceiro?

 

 
Saí do banheiro de volta ao salão. Antes de descer as escadas, no corredor, pareceu que alguém estava atrás de mim. Virei-me, mas não havia ninguém. Comecei a descer as escadas e novamente, a sensação de que alguém me observava. Senti um arrepio que veio da nuca e percorreu meu corpo. Parei de descer e olhei para trás. Eu só podia estar imaginando coisas. Quando me virei para continuar descendo a escada, ouvi uma voz. Era um sussurro.
- Desirèe...
Olhei para todos os lados e não vi ninguém. Bebi apenas duas taças de vinho, eu não deveria estar embriagada. Finalmente, consegui chegar ao salão.
- Claire! Aonde você se meteu? Estava te procurando.
- Fui ao toillete.
- Pensei que tivesse ido embora sem me avisar.
- Por que eu faria isso, Elisabeth?
- Deixa pra lá! Ainda bem que você está aqui. Tem alguém que quer te conhecer.
Sem me dar tempo para explicar que eu não queria conhecer ninguém, Elisabeth me pegou pela mão e me levou a uma mesa.
- Pronto, senhor! Ela está aqui.
Um homem muito bonito e elegante se levantou e beijou minha mão.
- Pode ir agora, você já cumpriu sua missão.
Disse ele, se dirigindo à Elisabeth. Missão?! Mas que missão?
- Alexander Carter. É um prazer finalmente conhece-la, Claire.
A voz dele me parecia familiar.
- Vamos.
- Para onde?
Ele pegou em minha mão e me levou para a pista de dança.
- Não, por favor. Eu não...
Quando me dei conta, eu estava nos braços dele, dançando. Ele me olhava fixamente nos olhos e eu senti aquele arrepio novamente. Eu queria parar de dançar, parar de olhar para ele, eu queria ir embora, mas continuei dançando, sem resistência.
Em certo momento, seus lábios tocaram meu pescoço. Senti-me meio tonta, o arrepio se intensificou e eu estava... Excitada?!
- Seu perfume é inebriante!
Eu não sabia o que dizer. Simplesmente, deixei que aquele homem me controlasse. É isso! De alguma maneira, eu estava sendo controlada. Até que...
- Com licença. Posso dançar com minha amiga?
O homem continuou a me olhar e sorria.
- Creio que sua amiga não quer dançar com você. Não é mesmo, Claire?
- Não. Eu quero dançar com ele sim.
O sorriso dele desapareceu e seu olhar parecia ameaçador. Mesmo assim, fui dançar com Álvaro, que parecia ter me libertado de alguma coisa.
- Pensei que você não soubesse dançar.
- E não sei.
- Não é o que está parecendo, Claire.
- Álvaro, eu quero ir para casa.
Parei de dançar e fui direto para a saída.
- Espere, Claire! Eu vou com você.
Estava chovendo e o vento estava forte. Havia esquecido que meu carro estava no estacionamento do teatro, que não ficava muito longe do hotel. Não me preocupei com a chuva e o vento e fui andando, com Álvaro me seguindo.
- Claire, está indo para onde?
- Para o teatro.
- Por quê?
- Para pegar meu carro.
Álvaro me alcançou e me fez parar.
- Meu carro está no hotel. Vamos voltar, pego meu carro e buscaremos o seu, está bem?
Álvaro sempre foi muito gentil. Eu me sentia horrível por desprezá-lo. Eu sempre soube dos sentimentos dele por mim, mas nunca senti o mesmo por ele. É uma pena! Talvez com ele eu poderia ter sido mais feliz.
Quando chegamos ao estacionamento do teatro, estava trancado.
- Mas que droga!
- Calma, Claire! Amanhã você pega seu carro, eu posso trazer você. Agora vou te levar para casa.
Álvaro me deixou em casa e combinamos de ele vir me pegar pela manhã para buscar meu carro.
- Obrigada, Álvaro.
- Boa noite, Claire.
Subi as escadas que davam para a porta de entrada da casa de meus pais e levantei um dos vasos para pegar a chave. Ela estava lá! Sempre foi assim, desde que eu era criança.
Abri a porta, coloquei a chave de volta embaixo do vaso e, quando fui fechar a porta, vi um vulto.
- Olá! Quem está aí?
Não houve resposta. O vulto continuou parado, olhando em minha direção. Fechei a porta e olhei pela janela. O vulto havia sumido.

 

Tomei um banho e me deitei. Há tempos eu não tinha uma noite tão agitada e consegui dormir rapidamente.
No dia seguinte, acordei com vozes vindas da parte de baixo da casa. Levantei, lavei o rosto, escovei os dentes, coloquei o roupão e desci.
- Tia Claire! Você veio!
Natasha é minha sobrinha, afilhada e aluna. Uma adolescente incrível! Inteliegente, bondosa, sensível, carismática e me adorava. Ao contrário de sua mãe, minha irmã Luna.
- Eu te falei que vinha.
- Eu pensei que você tivesse dito que vinha como um “cala a boca”. Sabe como é?
- Sei. Mas eu não faria isso com você.
Natasha me abraçou forte, me beijou no rosto e foi falar com meu pai.
- Como vai, Luna?
- Muito bem. E você?
- Bem também. Onde está Nicolas Júnior?
- Está ajudando o pai a pegar as malas no carro.
Saí para ajudar meu cunhado e meu sobrinho.
- Cadê meu sobrinho favorito?
Nicolas saiu de trás do carro e correu para me abraçar.
- Ah, tia! Eu sou seu único sobrinho, né?
- É sim! Deixe-me te ajudar com essas malas.
- Oi, Claire! Como está?
- Oi, cunhado! Estou bem e você?
- Fazendo de tudo para agradar sua irmã.
- Como sempre, não é?
- Pois é!
Nicolas também me abraçou. Ele era um cara legal. Sempre penso porque ele nunca largou minha irmã. Ele deve amá-la muito ainda. Ou é um santo!
Fizemos algumas viagens para entrar com toda a bagagem da família. Minha irmã não movia um dedo sequer para ajudar, ela só dava ordens para as crianças e para o santo do meu cunhado.
Todos estavam à mesa para tomar o café da manhã. Pouco depois, alguém bateu à porta.
- Eu abro! – Gritou Nicolas Júnior.
- Quem é você?
- Eu sou Álvaro. E você é... Nicolas! Acertei?
- Acertou! Como você sabe quem eu sou? Você é um bruxo?
- Talvez.
- Vó, tem um bruxo querendo entrar na sua casa.
Levantei e fui salvar Álvaro.
- Tia, ele é um...
- Bruxo. Eu sei! Mas ele é um bruxo bonzinho e pode entrar.
- Está bem, senhor bruxo. Pode entrar!
- Muito obrigado!
Álvaro entrou e cumprimentou a todos.
- Bom dia! Desculpem-me! Acho que cheguei em uma hora errada.
- De forma alguma, Álvaro! Sente-se para tomar café conosco. Vou pegar uma xícara para você. – Disse minha mãe, um tanto entusiasmada com a presença de Álvaro.
- Luna, sua mãe disse para a minha que você não viria passar o Natal aqui. É bom vê-la novamente.
Minha irmã não disse nada, apenas sorriu. Um sorriso desprezível.
- Tia, meus primos não virão passar o Natal conosco mesmo?
- Não. Eles preferiram viajar para Londres com o pai.
- Eles estão certíssimos! Eu queria passar as festas em Nova Iorque, mas Nicolas disse que devemos passar em família.
- E ele está certo, minha filha! Estou feliz com minha família reunida! Só faltam meus netos, Matheus e Clarice. Eles deveriam estar aqui conosco.
Luna é tão esnobe! “Eu queria passar as festas em Nova Iorque”. Só de olhar para ela me dá náuseas. E quando ela abre a boca para soltar seu veneno, minha vontade é de vomitar na cara dela. Antes que isso acontecesse, pedi licença e fui me arrumar.
- Filha, vai sair?
- Sim, mamãe. Ontem deixei meu carro no estacionamento do teatro e, gentilmente, Álvaro me trouxe em casa e se ofereceu para irmos buscar meu carro. Precisa de alguma coisa da rua?
- Não, filha, obrigada. Já tenho tudo o que preciso para a nossa ceia.
Álvaro e eu nos despedimos e fomos para o teatro.
- Você e sua irmã ainda são inimigas mortais?
- Percebeu?
- Até hoje eu não entendi porque vocês se odeiam tanto.
- É fácil, Álvaro! Basta olhar para ela. Ela não é de Deus!
Álvaro gargalhou.
- Vocês deveriam fazer terapia juntas.
- Não sabia que você é um incentivador da Terceira Guerra Mundial.
Ele gargalhou novamente.
- Não sou adepto a guerras e acho que vocês deveriam resolver suas adversidades.
- Não é uma questão de adversidade. Ela simplesmente é intragável. Não existe hipótese alguma de conciliação. Luna saiu das profundezas das trevas e veio parar justamente na minha família. A única coisa que posso fazer é evita-la.
- Como sua mãe se sente em relação a isso?
- Ela sofre, obviamente. Mas aprendeu a lidar com a situação. Ah, não! O portão do teatro está fechado.
- Eu sei.
- Sabe?! Por que estamos aqui, então?
- Porque antes de sair de casa, telefonei para o administrador e ele está nos esperando. Só preciso chamar.
Que alívio! Eu preciso desesperadamente do meu carro se eu precisar sair às pressas, caso eu não consiga resistir à tentação de espancar minha irmã.
- Álvaro, muito obrigada por tudo! Não sei o que eu faria sem você.
- Foi uma honra poder te ajudar. Se precisar, você sabe que estarei aqui.
Dei um beijo no rosto dele, entrei no meu carro e saí. A caminho de casa, passei em frente ao hotel onde estive ontem à noite. Havia muitas pessoas na portaria. O que será que aconteceu? Decidi parar.
- Bom dia! O que está acontecendo?
- A pianista está tocando e convidou quase toda a cidade para vê-la e ouvi-la.
- Quase toda a cidade? Por quê?
- Porque nem todos podem pagar para assistir a um concerto.
Interessante. Entrei na fila também. Quinze minutos depois, consegui adentrar ao salão de festas. A pianista já estava tocando. Chopin. Mas assim que entrei, ela começou a tocar Clair de Lune, a “minha música”.
Era impressão minha ou a pianista estava olhando diretamente para mim? Ela deu um sorriso. Não era impressão! Ela realmente estava olhando para mim. Olhei ao redor e as pessoas pareciam hipnotizadas. O único som que se ouvia no salão era a melodia vinda do piano.

 

Seu repertório era extenso! Beethoven, Brahms, Schubert, Tchaikovsky, Liszt, Villa-Lobos... Ela tocava divinamente! E tocava nosso coração, nossa alma e, merecidamente, foi muito aplaudida.
O concerto havia chegado ao fim. Uma pena! Eu a ouviria por horas, sem parar. Saí do salão e quando cheguei à porta de saída do hotel, um homem me chamou.
- Senhora, por favor.
- Sim?
- Mademoiselle Juliette Duniér solicita sua presença.
- Minha presença? Onde? Por quê?
- Não sei, senhora. Ela só pediu que eu a chamasse.
Acompanhei o homem, que me levou à cobertura do hotel. Quando ele ia tocar a campainha, a porta se abriu.
- Mademoiselle Claire, entre, por favor.
Como ele sabe meu nome?
- Mademoiselle Juliette Duniér logo virá, fique à vontade. Com licença.
A suíte era enorme e luxuosa. Apesar de nascer, crescer e conhecer bem Teresópolis, eu nunca tinha visto algo tão sofisticado. Bem, eu nunca tinha entrado em nenhum hotel antes da festa da noite anterior.
- Claire! Estou muito feliz por ter aceitado meu convite. É um prazer conhecer você, finalmente!
Juliette me abraçou como se sentisse saudade! Foi um abraço forte e longo.
- Sente-se. O que gostaria de beber?
- Por que eu estou aqui?
- Pardon?
- Por que pediu que eu viesse?
Ela sorriu.
- Desculpe-me. Não havia pensado que você pudesse achar estranho. Se quiser ir embora, vou entender.
- Na verdade, não quero ir embora, não sei porque, mas… Só quero entender o motivo de me chamar para a sua suite, com tantas pessoas que adorariam estar aqui. Por que eu?
- Porque você é especial, Claire. Não sei como explicar sem parecer uma louca.
- Ok! O que você quer de mim?
- Tudo!
- O que seria esse “tudo”?
- Você!
Eu me levantei.
- Tem razão. Você está parecendo uma louca.
Ela gargalhou.
- Pardon, ma chérie! Em breve você vai compreender. Mas, por enquanto, tome uma taça de champanhe comigo. Aceita?
- Sim.
Ela serviu duas taças com a champanhe e entregou uma a mim.
- Um brinde a você, Claire! Por estar aqui.
A champanhe era deliciosa. Ela nos serviu mais uma taça, colocou uma música para tocar e estendeu sua mão.
- Dance comigo, Claire.
Sem pensar, aceitei o convite. Ah! Que perfume gostoso! Ela me embalava em seus braços e deixava meu corpo leve, como se eu estivesse no ar. O olhar dela era penetrante, como se quisesse ler o que se passava pela minha cabeça. Ela sorriu e então, deslizou sua mão suavemente pelas minhas costas e eu me arrepiei.
- Claire...
Sua voz era sensual demais! Nossas bocas entreabertas, quase coladas, pareciam implorar por um beijo. E eu queria, queria muito que ela me beijasse. Mas, de repente, ouvi o som de um telefone tocar e despertei, como se estivesse acordando de um sono profundo.
- Não, Claire!
Ignorei o pedido dela e fui ver se era o meu telefone que estava tocando insistentemente.
- Oi, mãe. Sim, estou bem. Não aconteceu nada, estou bem mesmo. Ok! Já vou para casa.
- Vou te acompanhar até a portaria.
- Não é necessário.
- Eu insisto. Quando poderei vê-la novamente?
- Não sei. Ficarei na cidade apenas alguns dias.
- Até quando?
- Creio que irei depois do Natal.
- Gostaria muito de vê-la novamente, Claire.
- A gente se vê por aí. Obrigada pelo champanhe. Podemos ir agora?
Juliette me acompanhou até a saída do hotel.
- Me diz uma coisa... Você é francesa mesmo? De verdade?
Ela gargalhou.
- Por que eu mentiria?
- Talvez para chamar mais atenção para a sua arte.
- Garanto que sou francesa de verdade.
- É que você fala o meu idioma tão bem.
- Eu estudei tudo sobre o seu país, inclusive o idioma.
- Você é estranha.
Ela gargalhou novamente.
- Por que diz isso?
- Quem estuda sobre um país e aprende o idioma só para ficar alguns dias?
- Talvez eu fique por muito mais tempo.
Ela realmente era muito estranha.
- Preciso ir. Feliz Natal, Juliette!
- Joyeux Noel, Claire!

 

 
Cheguei em casa e fui para a cozinha ajudar minha mãe com os preparativos da ceia.
- Você demorou! O que houve, Claire?
- Depois que peguei o carro, passei pelo hotel e a pianista estava tocando para as pessoas que não puderam ir ao concerto. Então, eu parei e assisti.
- De graça?
- Sim.
- Que gentileza a dela! E quando ela terminou de tocar, você veio direto para casa?
- O que você quer saber, mãe?
- Ah, nada! Eu só perguntei.
- Sei.
- Tá bom, tá bom. A Denise trabalha no hotel e contou para a mãe dela que viu você indo para a cobertura e a Dona Margarida, que é mãe da Denise, me telefonou contando e disse que a hóspede da suíte da cobertura é a tal pianista. Você já a conhecia?
- Não.
- Então por que você foi para a suíte dela?
- Porque ela me convidou.
- Ela convidou outras pessoas também?
- Não que eu saiba.
- Mas por que ela te convidou?
- Eu não sei, mãe. Por que isso é tão importante?
- Porque a Denise, filha da Dona Margarida, que...
- Mãe, eu já sei quem é Denise.
- Então! Ela disse que a pianista é... Bem... Parece que ela é... Você sabe.
- Não, não sei. Parece que ela é o que?
- Lembra da filha do Seu Juarez?
- Não.
- Claro que lembra! Ela era da sua turma no ginásio, ela jogava futebol.
- Ah, sim! Você quer dizer que a pianista é lésbica. É isso?
- Xiu! As crianças podem ouvir.
Natasha entrou na cozinha.
- O que as crianças podem ouvir, vó?
- Nada. Volte para a sala, esta é uma conversa de adultos.
- Bom, na verdade, eu ouvi. Quem é lésbica?
Minha mãe colocou as mãos no rosto, como se tivesse levado um grande susto. Natasha e eu rimos.
- Mãe, você acha que as crianças de hoje são como nós no nosso tempo? Elas têm a Internet, sabem mais coisas que nós.
- Mas diz aí, vó! Quem é lésbica?
- Cala a boca, menina! Sai daqui!
Minha mãe pegou uma colher de pau e botou Natasha para correr.
- Filha, você sabe que eu não sou preconceituosa e sabe também que a única coisa que importa para mim é ver minhas filhas felizes. Então, se você e a pianista...
- Não aconteceu nada, mãe. A gente teve uma conversa rápida e bebemos champanhe. Só isso.
- Ela está com a família dela?
- Não sei.
- Pode convida-la para passar a noite de Natal conosco, se você quiser.
- Não quero.
- Está certo. Mas se mudar de ideia, nem precisa me avisar.
Não contei para minha mãe que Juliette e eu dançamos e que quase nos beijamos. Afinal, não significou nada.
Tudo estava pronto para a ceia de Natal. Comida, bebida, pratos, copos, talheres. Agora só faltava eu tomar banho, me arrumar e esperar os convidados chegarem.
 
CONTINUA...

 
Esta é uma história de ficção. Quaisquer semelhanças com nomes e acontecimentos terá sido mera coincidência.

 
Rose Madeo
Enviado por Rose Madeo em 06/01/2020
Alterado em 22/04/2020
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